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Fioretti Consultoria Contábil

Inteligência Artificial na Contabilidade: Reforma Tributária e o novo papel do contador

A contabilidade está mudando — e talvez mais rápido do que muita gente imagina.

Nos últimos anos, vimos sistemas assumirem tarefas que antes exigiam horas de trabalho manual. 

Conciliações ficaram mais automatizadas, documentos passaram a circular de forma digital, informações começaram a se integrar entre diferentes plataformas e, mais recentemente, a Inteligência Artificial na contabilidade passou a fazer parte da rotina de muitos profissionais e empresas.

Ao mesmo tempo, estamos entrando em uma das maiores mudanças do sistema tributário brasileiro das últimas décadas.

Quando comecei a pesquisar a relação entre Reforma Tributária, Inteligência Artificial e profissão contábil para um trabalho acadêmico, uma questão acabou se destacando: se a tecnologia consegue executar cada vez mais atividades operacionais, qual será o papel do contador daqui para frente?

A resposta que encontrei não aponta para uma profissão menos importante. Aponta para uma profissão diferente, na qual a capacidade de interpretar informações e apoiar decisões tende a ganhar espaço. 

Essa visão também se aproxima do conceito de contabilidade consultiva, que utiliza os dados contábeis como apoio para a gestão do negócio.

A Reforma Tributária vai exigir mais do que calcular impostos

Quando falamos em Reforma Tributária, é natural que a primeira preocupação do empresário seja saber quanto sua empresa vai pagar de imposto.

Só que a mudança vai muito além disso.

A Reforma Tributária do Consumo introduz novos tributos, como a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), além de alterar progressivamente a estrutura de tributação sobre o consumo no Brasil.

Durante a transição, será necessário entender como as novas regras afetam cada negócio, seus custos, sua operação e suas decisões. E empresas diferentes podem sentir esses efeitos de maneiras muito diferentes.

É justamente aí que o trabalho contábil começa a ultrapassar o simples cumprimento de obrigações.

Para o empresário, pouco adianta conhecer uma nova regra se ele não consegue responder perguntas como:

  • O que isso muda na minha empresa?
  • Meu preço continua fazendo sentido?
  • Como ficam meus créditos tributários?
  • Qual será o impacto no caixa?
  • Preciso rever alguma decisão ou estrutura tributária?

A pesquisa que desenvolvi reforçou justamente esse ponto: diante das mudanças tributárias, interpretação, análise de cenários e orientação aos gestores tendem a ganhar ainda mais espaço na atuação do contador.

Esse acompanhamento também se relaciona ao controle de caixa, indicadores e informações financeiras, porque uma alteração tributária não deve ser analisada isoladamente: seus efeitos podem chegar à margem, ao preço, à disponibilidade financeira e ao planejamento da empresa.

Além disso, acompanhar os marcos regulatórios da Reforma Tributária será fundamental para transformar novas normas em decisões práticas dentro das empresas.

E então entra a Inteligência Artificial

Enquanto o sistema tributário muda, a tecnologia também transforma a maneira como a contabilidade é feita.

Isso já está acontecendo.

Atividades repetitivas, organização de documentos, classificações, conciliações e até a preparação inicial de relatórios podem contar cada vez mais com automação e Inteligência Artificial na contabilidade.

Os estudos analisados no trabalho mostram justamente esse movimento: a tecnologia pode aumentar a eficiência e a capacidade de análise, enquanto competências como interpretação, julgamento e comunicação ganham relevância.

O próprio Governo Federal mantém uma Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial, que contempla, entre seus eixos, qualificação profissional, força de trabalho, inovação e aplicação da IA nos setores produtivos.

E talvez esteja aí uma das partes mais interessantes dessa transformação.

Durante muito tempo, uma parcela enorme da energia dos escritórios contábeis foi consumida para produzir a informação. 

Agora, a tecnologia começa a abrir espaço para algo que sempre deveria ter sido igualmente importante: entender o que fazer com essa informação.

Um sistema pode apontar que a margem caiu. Mas por que ela caiu?

Um relatório pode mostrar que determinada despesa aumentou. Mas isso representa um problema ou faz parte de uma estratégia de crescimento?

Um software pode calcular um tributo. Mas aquela estrutura continua sendo a mais adequada para a empresa?

É nesse ponto que tecnologia e conhecimento profissional deixam de parecer concorrentes.

Empresas que já trabalham com modelos digitais, sistemas integrados e indicadores financeiros demonstram bem essa mudança. 

Em negócios de tecnologia, por exemplo, a própria contabilidade para empresas de tecnologia precisa combinar obrigações fiscais, análise de indicadores, planejamento tributário e compreensão do modelo de negócio.

Então a Inteligência Artificial vai substituir o contador?

Essa pergunta aparece cada vez mais, mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

A questão não é apenas saber quais tarefas a Inteligência Artificial conseguirá executar.

Talvez seja mais importante perguntar: que tipo de trabalho continuará fazendo o empresário perceber valor no contador?

Se boa parte do processamento das informações se tornar mais rápida e automatizada, simplesmente entregar números tende a ser cada vez menos suficiente.

O valor passa também pela capacidade de interpretar esses números, relacioná-los ao negócio e ajudar o empresário a decidir.

Isso não significa que a contabilidade operacional deixa de existir. Muito pelo contrário. Escrituração, fiscal, folha, obrigações acessórias e conformidade continuam sendo a base do trabalho.

Mas a base não precisa ser o limite.

Da contabilidade operacional para uma atuação mais consultiva

Foi justamente esse ponto que mais me chamou atenção durante a pesquisa.

A chamada contabilidade consultiva não significa abandonar o trabalho técnico para virar uma espécie de consultor empresarial genérico. Significa utilizar melhor aquilo que a própria contabilidade já produz.

Os números contam uma história sobre a empresa.

Receitas, custos, despesas, margens, impostos, folha, caixa e resultados trazem informações que podem ajudar o empresário a:

  • entender melhor a situação financeira da empresa;
  • identificar problemas antes que eles se agravem;
  • acompanhar custos e margens;
  • avaliar impactos tributários;
  • comparar cenários;
  • tomar decisões com mais informações.

E quanto mais a tecnologia ajuda a organizar e processar esses dados, maior pode ser a oportunidade de o contador dedicar tempo àquilo que exige conhecimento, experiência e contexto.

Estudos utilizados no trabalho mostram, inclusive, que micro e pequenas empresas reconhecem a importância da informação contábil para a gestão e que uma relação mais próxima entre contador e empresário pode contribuir para decisões melhores.

Talvez seja essa uma das grandes oportunidades para a profissão nos próximos anos.

Não deixar de entregar a guia, a folha ou a obrigação. Mas conseguir ir além delas.

O contador do futuro talvez já esteja sendo construído

Depois de estudar juntos os movimentos da Reforma Tributária, da Inteligência Artificial e da contabilidade consultiva, fiquei com uma percepção bastante clara.

O conhecimento técnico continua sendo indispensável. Talvez até mais do que antes.

A diferença é que ele passa a dividir espaço com outras competências importantes:

  • capacidade analítica, para interpretar dados e identificar relações entre os números;
  • pensamento crítico, para avaliar resultados e diferentes cenários;
  • comunicação, para transformar informações técnicas em orientações compreensíveis;
  • entendimento do negócio, para conectar números, operação e estratégia;
  • domínio de tecnologia, para utilizar ferramentas de automação e Inteligência Artificial com responsabilidade;
  • julgamento profissional, para avaliar situações que não podem ser resolvidas apenas por regras automatizadas.

A tecnologia pode fazer cálculos cada vez mais rápidos. Pode organizar volumes enormes de dados. Pode automatizar tarefas que antes tomavam horas.

Mas alguém ainda precisa olhar para tudo isso e perguntar: “O que esses números estão dizendo sobre esta empresa?”

E, principalmente: “O que fazemos a partir daqui?”

Talvez seja exatamente aí que esteja o novo espaço do contador.


Por Patrícia Fioretti
Contadora | Fioretti Consultoria Contábil e Tributária

Este artigo nasceu de um estudo desenvolvido na disciplina de Metodologia e Didática do Ensino Superior, na Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), sobre as transformações da profissão contábil diante da Reforma Tributária e do avanço da Inteligência Artificial.